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Mal
se vê o país no mapa. Ele é tão pequeno e tão fascinante,
encravado na costa da África Ocidental, cercado por todos os
lados pelo Oceano Atlântico.
Todo o território
de São Tomé e Príncipe mede pouco mais de 1.000 km2 que hospedam
um santuário no continente africano: uma floresta equatorial. É
a mistura perfeita de tons que contrastam com as rochas
vulcânicas. As praias estão entre as mais bonitas do mundo.
E as matas,
intocadas desde que os portugueses descobriam essas ilhas em
1470, guardam um tesouro. O país africano, de 160 mil habitantes
que falam a língua portuguesa, é cheio de encantos e mistérios.
Agora, contaremos
uma estória incrível. Até parece ficção, saída de um livro de
aventuras infantis. Quem nunca ouviu falar no menino Mogli - o
garoto criado pelos bichos em uma das florestas mais fascinantes
do mundo? E o Tarzan? São lendas que encantaram gerações e
mexeram com a nossa imaginação, mas a aventura que descobrimos
nessas ilhas é pura realidade.
O cenário é uma
floresta africana. O personagem é uma criança, um menino que com
apenas 8 anos teve que enfrentar desafios quase impossíveis de
serrem vencidos para sobreviver: mata fechada, medo, bichos que
ele nem conhecia, escuro da noite, gritos que ninguém escutava.
Durante oito meses, Fernando ficou perdido na floresta.
Pela primeira vez,
depois de três anos, o garoto concordou em voltar ao lugar de
tantos pesadelos. O acesso requer coragem. A estrada vira
caminho, vira atalho, vira desafio. Duas horas e meia depois,
chegamos ao ponto onde tudo começou.
O menino nunca
tinha visto um boi: animal raro na Ilha de Príncipe. “O boi
começou a ir para a mata e comecei a acompanhar boi”, lembra
Fernando Neves Umbelino, hoje com 11 anos.
E a curiosidade
dele se transformou em um desespero. “Ele foi com o boi a uma
longa distância e não conseguiu regressar. Passamos dia e noite
à procura dele”, conta Frederico Neves Umbelino, irmão de
Fernando.
E nada. Os
moradores da cidade, a equipe de resgate: todos foram ajudar nas
buscas. “Procuramos durante duas, três semanas, e não o
encontramos”, revela Frederico.
Fernando conta que,
no princípio, quando viu que estava perdido, ele gritou pelos
irmãos e que ninguém escutava. “Sentia vontade de ver meu pai,
minha mãe, meus irmãos. Chorei muito. Eu pedi a Deus, ao anjo da
guarda para estar com a minha mãe”, diz o menino.
E assim foram os
240 dias e noites que ele passou isolado. “Eu procurei bastante
o caminho, mas não consegui ver”, afirma Fernando.
Ele ainda revela
que, na hora de dormir, se escondia debaixo de uma pedra. O
irmão Frederico conta que a família sofreu muito com o
desaparecimento de Fernando: “foi muito difícil. Não comia,
passava a vida a chorar”.
Fernanda Neves
Umbelino, a mãe do menino, conta os momentos em que mais se
lembrava de que o seu filho estava na floresta: “no momento em
que eu ia para cama, não via ele ir para cama, e no momento de
refeição, em que colocava a mesa e sentia falta dele”.
Mas Gervásio
Umbelino, o pai de Fernando, nunca perdeu a esperança: “eu nunca
tirei a chave da porta da minha casa, principalmente à noite. A
chave estava sempre na porta. A qualquer momento, ele podia
aparecer e podia calhar de não estar ninguém em casa, mas, com
chave na porta, ele conhece a casa muito bem, ele podia chegar e
entrar”.
Na floresta, as
lembranças do menino vêm à tona. Fernando faz questão de mostrar
como se acomodava quando escurecia. Ele se encaixa com
facilidade entre as pedras cheias de limo. Como sempre estava à
procura do caminho de casa, trocava de pedras com frequência.
E como nas revistas
em quadrinho ou nos desenhos animados, Fernando encontrou na
floresta um amigo inseparável: um macaco.
O menino conta que
o animal não saía de perto dele, ficava por perto o dia inteiro
e a noite toda. O macaco trepava no coqueiro, pegava coco,
quebrava o coco e dava para o menino.
Fernando bebia a
água e comia a polpa do coco verde. Ele se alimentava também de
um caramujo grande, que nasce nos troncos das árvores. Hoje, na
vizinhança, ele é conhecido como o pequeno Tarzan. Não faltou
valentia para honrar o título.
Quanto mais
Fernando tentava achar o caminho de volta, mais ele se
distanciava de casa. Um dia, chegou a uma praia selvagem,
totalmente deserta, até que avistou um pescador e levou um
susto. “Senti medo de ele fazer qualquer coisa má”, revela o
menino.
Medo e espanto
também foram as sensações do pescador Inocêncio dos Prazeres,
quando viu de longe o garoto: achou que era assombração.
“Eu rezei um ‘Pai
Nosso’. Comecei a pedir Deus, pedir Jesus Cristo para me ajudar,
me dar coragem para chegar perto do menino. Ele saltou de uma
ponta a outra e fez um pulo igual a um macaco. Ele não queria
que eu chegasse perto dele. Quando segurei ele , ele estava só
limo”,
Quando foi
encontrado, as roupas de Fernando estavam só trapos. “Ele estava
com muito medo. Eu também tive medo”, afirma Inocêncio.
Fernando teria
virado o menino da selva? O primeiro a receber a notícia de que
ele tinha aparecido foi o pai. A mãe precisou de calmante. Os
pais lembram a volta do menino à cidade: “quando chegamos, a
praça estava uma multidão. Ele olhou e começou a rir. Mas foi lá
que lágrimas começaram”.
Lembrar o
reencontro com o filho, naquele dia, traz de volta momentos de
dor e de alegria.
A estória de
Fernando não termina aí. A aventura revelou o que para muita
gente deste lugar ainda era desconhecido: o poder da comida de
cada dia dessa população. Quando voltou para casa, nem
desnutrido o menino estava. A mãe não tem dúvida. A razão da
resistência física ela nos mostra no terreiro de casa.
“Eu faço comida com
folha de maquequê, folha de matabaleria. Dou fruta, dou banana”,
afirma Fernanda Umbelino, a mãe do menino.
Seria este o
segredo da força de Fernando? A aventura do menino na selva pode
criar um novo capítulo na história da medicina. Cientistas não
conseguem entender por que o garoto não contraiu malária.
Uma hipótese: o
maquequê que ele comia todos os dias, em casa, pode ser uma
espécie de vacina natural contra a doença. Será que este povo
terá descoberto, sem saber, o princípio da comida medicinal?
Fonte: Globo |