
O «mais velho» dos Chefes de Estado da CPLP, Pedro Pires
acredita no futuro da Comunidade e nas potencialidades
da língua portuguesa como factor de desenvolvimento para
todos os países-membros.
Aos críticos e aos
descrentes da CPLP (Comunidade dos Países de Língua
Portuguesa) pede lucidez e perseverança. É adepto do
alargamento da Comunidade aos Estados vizinhos dos
países lusófonos mas no respeito de critérios claros de
adesão. Confia que as eleições em Angola serão um
sucesso, exemplo e esperança para toda a África.
A CPLP tem futuro? Sempre
que se fala na imprensa é para pôr em dúvida a sua
utilidade.
PEDRO PIRES. É uma falta de
respeito para connosco. É dizer que gastamos o nosso
tempo à toa, sem objectivos. Rejeito esta visão, embora
compreenda a impaciência daqueles que querem ver
resultados concretos e imediatos. Também se diz que
falta à CPLP um grande projecto económico. Mas há uma
aproximação entre os países, compreensão, solidariedade
e vários projectos, alguns deles cruzados. É assim que
se tecem os laços e se fortalece a comunidade.
O que achou da cimeira de
Lisboa?
Foi uma boa reunião, bem
organizada. Acho que o secretário-executivo cessante
Luís Fonseca fez um trabalho louvável, pensando no
futuro, para dar maior eficácia à comunidade. Na cimeira
avançou-se um pouquinho mais e estão criadas as
condições para que a organização funcione e aja de
maneira diferente, na base de um programa que foi
apresentado pelo primeiro-ministro português.
José Sócrates chamou-lhe a
Cimeira da Língua.
Considero importante e
oportuno que elaboremos uma estratégia comum de gestão
da língua portuguesa. O domínio da língua é um
instrumento fundamental de formação e qualificação das
pessoas, de aquisição e transmissão de conhecimentos.
Não defendo uma espécie de nacionalismo linguístico,
porque no mundo de hoje estamos condenados a falar
vários idiomas. Mas as relações entre as línguas não são
pacíficas, há competição, línguas que tendem para se
tornar dominantes. O nosso combate é para que a nossa
língua, que é património de um universo de mais de 240
milhões de pessoas não definhe, que tenha pujança e se
afirme como língua internacional.
A directora do Instituto
Internacional da Língua Portuguesa, Amélia Mingas,
queixou-se em Lisboa de ter de «fazer omeletas com
cascas de ovo»…
O IILP não funciona mas a
língua portuguesa nunca teve tantos falantes! A expansão
do português depende em primeiro lugar do
desenvolvimento da escolarização, do ensino e da
comunicação em cada um dos Estados-membros. À medida que
a educação em português progride, a língua expande-se
naturalmente, sem políticas agressivas. Há que fomentar
a leitura e acho que os meios de comunicação social
deveriam cuidar mais deste seu papel. Sem esquecer as
comunidades de emigrantes espalhadas pelo mundo.
A outra vertente
estratégica é diplomática, para fazer do português uma
língua de trabalho nas grandes organizações
internacionais, como já acontece em África nas
organizações regionais a que pertencemos. Finalmente,
devemos ser mais activos e imaginativos no que diz
respeito à transmissão de conhecimentos científicos e
tecnológicos em português. Estou convencido de que as
medidas que foram aprovadas darão resultados visíveis.
Que significa a CPLP para
Cabo Verde, um país respeitado, que acaba de ser
admitido na OMC, que tem um acordo especial com a União
Europeia e boas relações com todos os países e regiões
do globo?
O facto de Cabo Verde ter
desenvolvido uma política externa dinâmica e bem
sucedida não quer dizer que deva fechar-se sobre si
próprio e desinteressar-se do que acontece no resto do
mundo. Somos um país pequeno em território e população e
tivemos necessidade de sair das ilhas, de emigrar. Temos
fortes relações económicas com Portugal, Brasil, Angola
e o facto de falarmos a mesma língua, de termos
afinidades socioculturais é um vector importante. Mas há
outro que é produto da História e da própria vida.
Fizemos um determinado percurso com os países que
constituem hoje a CPLP. É nesse espaço que nos tornamos
mais fortes, porque há solidariedade e a solidariedade
ajuda sempre.
Esta é uma opinião
partilhada por todos os países e todos os chefes de
Estado da CPLP?
Acho que sim. Mas é preciso
paciência e perseverança. Estamos a construir,
estabelecer, restabelecer e desenvolver relações
económicas e de solidariedade. Há confiança e uma
cumplicidade natural que deve ser melhorada e
aprofundada.
Há um grande número de
iniciativas da sociedade civil no âmbito da CPLP e, no
entanto, é entre os intelectuais, as elites, que surgem
as mais duras críticas. Como explica esta aparente
contradição?
Talvez estejam a espera de
ver grandes obras, resultados mais visíveis. Os
intelectuais são sempre cépticos e a crítica é uma das
suas funções sociais. As críticas, mesmo desagradáveis,
são sempre bem-vindas quando ajudam os políticos a ter
uma melhor percepção das realidades. Já não são
positivas quando põem em causa a boa fé e o empenho dos
dirigentes.
Concorda com o alargamento
da CPLP a países que não pertencem ao espaço lusófono?
Deve-se estabelecer
critérios porque uma abertura excessiva faria a
Comunidade perder o sentido da sua existência. Acho
positivo o facto do Senegal querer participar e dar um
contributo. É um país que tem uma extensa fronteira e
fortes afinidades com a Guiné-Bissau e algumas com Cabo
Verde. Parte da população senegalesa fala o crioulo e há
numerosas comunidades cabo-verdianas e guineenses no
Senegal. Além disso, pode reforçar a posição de Cabo
Verde e da Guiné-Bissau na CEDEAO [Comunidade Económica
dos Estados da África Ocidental] e ajudar a quebrar as
fronteiras entre lusófonos, francófonos e anglófonos na
região.
E a Guiné Equatorial?
Fui das primeiras pessoas a
defender a participação da Guiné Equatorial na CPLP e
voltei a fazê-lo nesta Cimeira. Se é o desejo deste
país, não vejo razões para estarmos contra. Do ponto de
vista histórico, linguístico, e geoestratégico, a Guiné
Equatorial está dentro do espaço comum e quer estreitar
as relações com São Tomé e Príncipe e com Angola.
Mas o Presidente Teodoro
Obiang é acusado de graves violações dos direitos
humanos e dos princípios democráticos.
As pessoas que fazem essas
críticas não são realistas e revelam uma falta de
estratégia. Sejamos sérios e leais uns com os outros,
porque nestas questões da defesa da democracia e dos
direitos humanos não podem haver dois pesos e duas
medidas. Não me parece que seja isolando um país,
banindo os seus dirigentes, que vamos conseguir
progressos. Não acredito nas sanções como meio para
provocar mudanças internas. O diálogo e o convívio já
provaram serem muito mais eficazes.
Angola vai ter em breve as
suas primeiras eleições em tempo de paz. Qual vai ser o
impacto deste escrutínio?
Acredito que as eleições
vão correr bem e que as próximas eleições presidenciais
serão o fecho de todo o processo de passagem da guerra
para a paz e a normalidade institucional e democrática.
Sempre fui contra a
realização de eleições logo após o fim dos conflitos.
Disse-o publicamente na ONU e tive uma longa conversa
com o ex-secretário-geral Kofi Annan a este respeito. As
eleições nunca são a solução milagre. Quando se realizam
demasiado cedo aprofundam as divisões em vez de sarar as
feridas abertas pelos conflitos. É preciso criar antes
um clima de confiança entre os ex-beligerantes,
estabilizar, reconciliar e repor em funcionamento as
instituições do Estado. Isto consegue-se através de
compromissos internos e do papel aglutinador do
Presidente e do Estado.
Em Angola aconteceu isto. E
agora, seis anos depois do fim da guerra e com uma
situação mais ou menos normalizada, há condições para
realizar eleições que serão o último acto do processo de
transição e o primeiro de uma nova fase de
desenvolvimento.
Angola está chamada a ter
um papel muito importante na região austral e em toda a
África devido ao seu peso económico, mas, sobretudo,
porque tem instituições e um Estado que funcionam como
elemento de integração, unificação e desenvolvimento do
país. A emergência de uma Angola forte, próspera, social
e politicamente pacificada depois de décadas será um
exemplo e um estímulo para todo o continente.